"A Palavra", filme de Carl Theodor Dreyer, captura a essência da relação humana com a fé e a transporta, com esmero, para a tela de cinema.

Dono de uma filmografia enxuta e prolífica, Carl Theodor Dreyer marcou cada década de sua carreira com uma obra prima. De A Paixão de Joana D’arc (1928) à Gertrud (1964), passando também por Dia da Ira (1943), Dreyer sempre impactou pela naturalidade com que articula uma encenação, dando os devidos cuidados ao processo cinematográfico. Neste sentido, A Palavra talvez seja o filme mais representativo dessa essência teatral ressignificada à linguagem audiovisual que, neste belíssimo longa, serve ao propósito de tornar cinematográfica a relação transcendental com a fé.

É interessante que A Palavra seja o penúltimo filme de Dreyer, que já ostentava seus 66 anos à época. Há uma certa relação na maturidade e na consciência com que ele retoma tradições, além de uma herança do cinema mudo apropriada numa mise-en-scène igualmente impositiva e fluida.

Adaptado de uma peça homônima do dramaturgo dinamarquês Kaj Munk, a trama nos apresenta a família do fazendeiro Morten Borgen (Henrik Malberg), um patriarca cristão severo que vive com seus três filhos. O mais velho, Mikkel (Emil Hass Christensen), aguarda o nascimento de seu filho junto da esposa Inger (Birgite Federspel) e é o que mais tem indagações quanto a fé; Johannes (Preben Lerdorff Rye) é visto como louco por seus parentes e moradores do condado em que vivem porque acredita ser a reencarnação de Jesus Cristo; enquanto o jovem Anders (Cay Kristiansen) quer se casar com a filha do vizinho alfaiate, que não aprova o casamento devido as desavenças religiosas.

É bonito como Dreyer encontra uma maneira de apresentar na tela um contexto cru e esvaziado de intenções para tornar latente o que, de fato, dá sentido a tudo aquilo e a vida das personagens: a fé.

O roteiro de A Palavra propõe diálogos diretos e interações cuidadosamente pensadas entre as personagens que, por sua vez, ganham interpretações engessadas por parte dos atores. Essa teatralidade é intencional não só na esfera dramatúrgica, mas também na movimentação de câmera que acompanha o trânsito compassado dos atores por planos longos e fluidos. Há pouca interferência da montagem e quase nenhum uso de artifícios rebuscados.

O que ajuda a potencializar o impacto visual e, consequentemente, a aura transcendental do filme, é o trabalho estupendo de fotografia realizado por Henning Bendtsen. Do cinza escuro melancólico que toma as planícies e plantações da fazenda, passando pela pouca luz nas sequências fora da casa da família central a trama, assim como a iluminação clara e o branco leitoso da parte final do filme, a fotografia dá o tom celestial e abraça o metafísico que a narrativa tanto evoca.

Cena de “A Palavra” , em que o uso da iluminação com o branco intenso intensifica a aura celestial da cena

É um trabalho unificado e atencioso de guiar o espectador por essa experiência de transe cinematográfico que, em algum momento, transcende para algo maior. Nas cenas finais que compõem o clímax, Dreyer libera um sopro de emoção, um suspiro de vida tão intenso que entra naquele universo cru e melancólico como uma verdadeira intervenção divina deve ser.

Se o filme rompe com o plano da imagem e da aparência para um impacto transcendental ou metafísico com o espectador, cabe a cada um sentir e dizer. Contudo, Carl Dreyer entrega em A Palavra o filme que melhor transporta para a tela de cinema a relação humana com a fé. Não é um filme fácil, leve e convidativo, mas, assim como qualquer crença, se trata de uma jornada de recompensa repleta de sentido para a vida. Basta acreditar.

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