"O Grande Circo Místico" tenta abraçar a ludicidade cirsense, mas se perde na omissão criativa e discursiva de seu diretor.

O Grande Circo Místico reúne delineamentos de antigos trabalhos de Cacá Diegues, indo desde o naturalismo quase novelístico de Tieta do Agreste (1996) até o surrealismo multicolorido do fabuloso Bye Bye Brasil (1980). Encabeçado por Diegues, crítico, jornalista e um dos cineastas fundadores do Cinema Novo no Brasil, há nessa adaptação do poema homônimo de Jorge de Lima uma busca do lúdico circense, do lirismo poético e do realismo fantástico, mas que peca no desbalanceamento dessas vertentes.

Em formato episódico, o filme abraça os excessos, mas a fragmentação dos núcleos narrativos eclode na negligência com o desenvolvimento dos personagens e expõe as fragilidades muitas vezes maquiadas pelos aspectos artísticos. A trama de O Grande Circo Místico, escolhido como representante brasileiro para a 91ª edição do Oscar, conta a história de cinco gerações de uma família que herda sucessivamente o circo homônimo, que acaba sendo plano de fundo para a antítese da vida de cada descendência da família Knieps: o nascer e a morte.

A ligação das histórias resta ao personagem de Jesuíta Barbosa, Celavi (C’est la vieÉ A Vida, em português), que acompanha todas as gerações da família sem envelhecer. No entanto, a tentativa de criar uma relação simbólica do personagem com o circo não funciona e Celavi se torna uma figura bidimensional e deslocada na trama, tendo seu significado narrativo mais estratégico do que poético.

A contextualização histórica não é datada, fazendo com que a diegese de O Grande Circo Místico flutue em uma temporalidade anacrônica, enfraquecendo e renegando a brasilidade costumeiramente presente nos filmes de Cacá Diegues. A maior vulnerabilidade da película é exposta, sobretudo, na correlação das histórias dos personagens, onde por meio de uma diretriz sexual que atinge a todos, eles vão sendo conhecidos. As relações passionais decrescem, começando em um amor proibido entre a Imperatriz Virgem (Catherine Mouchet) e Dr. Frederico (Antônio Fagundes) e terminando com o estupro que resultou na gravidez de Margarete (Mariana Ximenes).

Em uma narrativa em que o estupro é recorrente e banalizado, Diegues se cala e não interfere de forma crítica em nenhum momento. Abstenção que também ecoa no desenvolvimento estereotipado e desleixado das personagens femininas, que servem apenas para se desnudar, reproduzir e morrer. É curioso que Celavi também metaforiza a omissão temática do diretor frente a diversos problemas do filme: é a vida.

Assim, o longa se perde nos seus discursos, seja com ironias sádicas ou representações fetichistas. Qualquer tentativa de contrariar isso soa mais como autoindulgência do que como redenção. O Grande Circo Místico celebra a antítese e até é competente ao devotar a atemporalidade impressa na alma do circo, mas a constelação presente no elenco se perde no picadeiro em inconsistências narrativas e no roteiro problemático.

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