"Praça Paris", filme de Lucia Murat, discute a tensão racial e social no Brasil em um retrato que espelha o contexto problemático.

“O Rio de Janeiro continua lindo”, assim como o pressentimento de perigo onipresente na capital carioca. Praça Paris, novo filme da diretora Lúcia Murat, aborda a tensão social por meio da violência sofrida por povos pretos, no passo em que também discute a desigualdade de classe. O filme é bem-sucedido em como propõe seus questionamentos, mas, tragicamente, o tecido narrativo muitas vezes se emaranha nos próprios preconceitos que se dispõe a combater.

A história é bifurcada em dois contextos diferentes e opostos. De um lado, Grace Passô interpreta Glória, moradora do Morro da Providência, irmã de um chefe do tráfico encarcerado e marcada por violências sofridas na infância. Do outro lado, a atriz portuguesa Joana de Verona dá vida à terapeuta Camila, uma mulher de classe média alta, origem europeia e completamente distante do cotidiano violento vivido por Glória, o que se torna cada vez mais evidente com o desenrolar do filme.

De uma forma interessante, Murat foca na presença de objetos em primeiro plano e usa repetidamente do travelling lento entre a paciente e a analista para evidenciar o distanciamento social vivido pelas duas. Assim, a diretor torna os encontros das personagens, e outros acontecimentos coexistentes na trama, cada vez mais conflituosos.

“Você me enxerga como um bicho de zoológico”, diz Glória para Camila. As transferências energéticas em tons de ameaça são reflexo do cotidiano vivido pela personagem de Grace Passô, que está apenas lutando para sobreviver com os recursos possíveis. A progressão do atendimento tanto evidencia a necessidade de ajuda da paciente, quanto a inépcia e racismo da terapeuta. “Saco plástico você já deve ter visto nos filmes, né?”, outra provocação de Glória, em relação às violências de seu cotidiano.

Apesar do racismo e das relações de classe estarem bem desenhados na trama, Praça Paris peca com uma representação questionável dos moradores da favela, no sentido de todos, sem exceção, serem maculados com envolvimento no crime. A construção pessimista desses personagens apenas pasteuriza uma representação já saturada e muito bem discutida por Ivana Bentes, em seu texto “Cosmética da Fome”, publicado no Jornal do Brasil, em 2001. A visão de Praça Paris, em muitos momentos, se aproxima desse cinema brasileiro contemporâneo de vocação mercadológica, que tem o objetivo de prevalecer-se sobre esses sertões urbanos.

A visão preconceituosa do estrangeiro sobre o Brasil é cada vez mais escancarada no filme, como na frase de Camila: “a minha família sempre disse que o culpado pela morte de minha avó tinha sido o Brasil”. Ao voltar à cena inicial do filme, quando a personagem portuguesa está na orla do mar, a ideia indutiva de suicídio se dissipa, tornando clara a visão colonialista de contemplação sobre as terras brasileiras, além do olhar de cima para baixo, pela métrica eurocêntrica. Como disse Elis Regina em “Querelas do Brasil: “O Brazil não conhece o Brasil…”, e Praça Paris parece estar aqui para provar.

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