Documentário "Babenco: Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer Parou" mostra como Hector Babenco segue vivo em seu próprio cinema.

Documentário “Babenco: Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer Parou” mostra como Hector Babenco segue vivo em seu próprio cinema.


N“Não sei o que vinha primeiro, se era o filmar ou estar vivo”, diz o cineasta Hector Babenco enquanto encara a câmera com um olhar intimista. Esse momento captura a essência de Babenco – Alguém Precisa Ouvir o Coração e Dizer: Parou, documentário dirigido por Bárbara Paz, que mostra como a vida e obra de Babenco se fundem em uma coisa só: um grande legado cinematográfico que mantém viva a alma de seu realizador.

Mais do que uma carta de amor e uma tocante homenagem ao cineasta argentino erradicado no Brasil, Bárbara Paz tece a narrativa do documentário com uma delicadeza ímpar. A maior virtude está na estrutura que conecta filmagens de momentos pessoais do casal em consultas médicas a passagens de momentos em que Babenco lhe ensina a mexer com a câmera, além de combinar recortes de filmes do próprio diretor nesta dinâmica.

Essa escolha é inteligente e um tanto quanto bonita porque é o que reforça a percepção de Paz – enquanto esposa, admiradora e, neste caso, diretora do documentário – de que os filmes de Babenco são a maneira com que ele encontrava para se relacionar com o mundo por meio do registro, de seu olhar particular.

A forma como Paz usa destes recortes para permitir que seu marido se expresse, mesmo que não mais presente, carrega uma forte carga etérea. Assim, Babenco – Alguém Precisa Ouvir o Coração e Dizer: Parou tem um trabalho de montagem fenomenal, responsável por articular esse retalho imagético – por vezes até mesmo onírico e abstrato – em uma lógica própria carregada de emoção, de verdade e, sobretudo, de sentido.

Mesmo que muito querido no meio do Cinema, Hector Babenco viveu confrontado por uma sensação de inquietação causada não só pelo câncer, mas também por nunca se sentir pertencente de fato a um lugar. Essa condição de “argentino naturalizado brasileiro”, de um sobrevivente que superou, em mais de 20 anos, a expectativa de vida lhe dada, tornam Babenco uma figura errante, um nômade que ao não pertencer a lugar algum encontrou no cinema o sentido de sua existência.

Seus filmes são imageticamente fortes e impactantes, repletos de uma urgência sensorial e atmosférica que revelam a sua própria condição: afinal, o próprio Babenco viveu ciente de seu estado, de sua necessidade de correr contra o tempo que lhe restava e é essa dinâmica que Bárbara Paz se apropria para mostrar como Hector segue vivo por meio de sua arte.

Ao mesmo tempo, é interessante que o documentário seja conduzido com um equilíbrio preciso entre a emoção e a dor, a beleza e o sofrimento, dos últimos momentos de Hector. Paz domina o desenrolar de sua narrativa e o faz com a consciência de uma cineasta que mesmo sem um traço autoral muito forte para encenar, encontra uma solução virtuosa para dar potência ao seu filme ao pareá-lo constantemente ao trabalho do próprio Babenco.

Ao final, Paz encena o dito sonho de vida (ou, porque não, de morte) de Hector com uma aura transcendental latente. É o desfecho perfeito para Babenco, tanto o cineasta quanto o documentário, que se fundem em uma única existência – uma demarcação não só de que Hector Babenco segue vivo em seu legado cinematográfico, mas que sua vida nunca foi feita apenas de batimentos cardíacos e sim da força de suas imagens projetadas na tela.

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