"Açucena", documentário de Isaac Donato, trabalha a relação espacial como a fisicalidade de rituais reveladores da alma humana.

É interessante que Açucena, protagonista homônima do documentário dirigido por Isaac Donato, não apareça em tela. Sua participação no filme é marcada pela onipresença de sua figura, quase que uma persona mítica referenciada pelos amigos, familiares e pela direção precisa de Donato para caracterizar sua personagem por meio do espaço.

A sinopse objetiva diz muito: “Todo ano, uma mulher de 67 anos comemora seu aniversário de 7 anos”. Acompanhamos, então, os momentos anteriores a esta celebração e todo o envolvimento das pessoas que circundam a vida de Açucena.

Logo na abertura do filme, Donato cria uma atmosfera de inquietação, de algo inusitado que permeia todo o filme. Se há uma sugestão de uma atmosfera de horror ou de algo sombrio nos primeiros minutos, esse clima se esvai na medida em que a câmera estática para a captar os espaços da casa em tons rosas com uma encenação que prioriza as bonecas e objetos inanimados do que suas figuras.

Assim, Açucena cresce como um documentário de poucos relatos e de muita documentação. Neste sentido, Donato não se interessa por aprofundar algum tipo de patologia que embase os acontecimentos e, sobretudo, a “temática” do ritual de aniversário da senhora. Pelo contrário, se a aniversariante não aparece por estar nessa condição quase que folclórica e mítica, a preocupação do documentário é estuda-la e apresenta-la por meio da do ritual relacionado a sua data.

Ao final, a atmosfera de horror que é anunciada na primeira sequência de fato dá lugar a um retrato terno, sensível e carinhoso sobre sua incomum protagonista. Nesta relação de figura simbólica e humana, Isaac Donato busca contar a história de Açucena pela relação com o espaço. Afinal, dentro deste ritual interessante que tanto revela sobre a protagonista, o “templo” em que tudo se desenrola acabada revelando a estrutura de tudo que está no plano.


MOSTRA TIRADENTES

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