"Comboio pra Lua" faz um bonito e sensível retrato dos momentos de transição da vida em que buscamos pelo sensação de pertencimento.

Não pertencimento, solidão e relacionamentos à distância são os empecilhos diários de Pedro e Rebeca. Os amigos – ela brasileira e ele português – estudam em Portugal e tentam lidar com as alegrias e tristezas que a vida proporciona. Imaginar o distanciamento entre as pessoas fora do contexto pandêmico pode nos parecer estranho, porém, Comboio pra Lua, curta-metragem de Rebeca Francoff traz a possibilidade de lembrarmos alguns dos motivos pelos quais os afastamentos acontecem.

A distância de casa é o maior conflito de Rebeca, que tem suas expectativas quebradas ao esperar que certas coisas sejam iguais às do seu país de origem, como por exemplo, a existência de uma passarela para atravessar o trilho do trem. Mas, diferentemente de seu amigo que foi expulso de casa, ela tem para onde voltar. O não pertencimento para Pedro é apresentado de forma dupla, tanto pelo local em que está vivendo quanto pela casa da mãe em que foi impedido de estar.

Para além das outras coisas, os dois amigos vivem em relacionamentos amorosos não tão sucedidos por conta do contato não presencial. O mundo virtual de chamadas de vídeos e voz não supre as expectativas quando existe a possibilidade de sentir a presença do outro. Na mesma medida que não conseguem pertencer ao espaço físico que habitam, também falham em se sentirem pertencentes em alguma relação.

Em certo momento, Pedro é perguntado se ele não deixa o seu gato sair para conhecer a rua e outros gatos, ele responde que tem medo pois o felino não conhece os perigos do mundo. É uma das maiores preocupações de quem tem filhos, principalmente daqueles que veem seus filhos saindo de casa, justamente o caso dos personagens.

Em 23 minutos, é possível refletir sobre como é difícil estar longe do que nos traz sensação de pertencimento, mas, mais que isso, devastador mesmo é estar distante de si mesmo. A busca retratada no curta-metragem reflete exatamente o que todos sentem nessa fase da vida, necessidade de se encontrar nem que seja necessário viajar em um Comboio pra Lua.


MOSTRA TIRADENTES

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