Do folk ao rock: as duas caras de Mumford & Sons

Mumford & Sons lança seu quarto álbum de estúdio, “Delta”, tentando conciliar diferentes estilos musicais, mas ainda se apoiando naquele que os consagrou.


QQuando o Mumford & Sons lançou Wilder Mind em 2015, o quarteto surpreendeu o público e o cenário musical com uma guinada que leva o estilo da banda para uma pegada mais voltada para o pop rock, mas ainda mantendo a identidade de um folk hipster que os consagrou. Sua influência para bandas que estouraram nos últimos anos, como o The Lumineers, veio justamente desta capacidade que o grupo têm em combinar estilos ao folk, como o rock ou o country. Agora, com o lançamento de Delta, o quarteto britânico dá mais um passo na mudança apresentada em Wilder Mind, caminhando para uma investida mais pop e pasteurizada de sua música, mas que ainda resguarda alguns respiros de originalidade.

Apesar de ser a coletânea que mais se distancia da identidade apresentada em Sigh No More (2009) e Babel (2012), Delta ainda apresenta algumas faixas que trazem a essência do quarteto. Curiosamente, Guiding Light e If I Say, reveladas antecipadamente como campanha de divulgação da coletânea, são as duas que mais conseguem equilibrar a pegada folk com os sons da guitarra elétrica e o teclado crescente de Ben Lovett. O resultado ao experienciar o álbum completo é uma sensação de surpresa, uma vez que a expectativa criada pelas duas músicas promocionais era a de uma sequência na linha de Wilder Mind, combinando com equilíbrio o folk e o rock – o que vemos, no entanto, pode ser uma perda de frescor no próprio trabalho. Wild Heart beira uma versão acústica do que o álbum procura apresentar, mas o vocalista carrega a canção com emoção e leveza que combinam com a musicalidade do teclado agudo e das cordas de apoio.

Não que as novas canções não funcionem ou representem uma mudança total no que o grupo britânico vinha fazendo, mas é curioso perceber que, em uma carreira sustentada por quatro álbuns até então, fica fácil de dividir as criações em dois grupos de identidades claras. Essa divisão é também sentida no próprio Delta, que soa como o resultado de uma indecisão entre a despedida das origens do grupo, o resgate de uma identidade ou a manutenção de uma combinação mais palpável. Se por um lado Guiding Light, If I Say, Beloved e October Skies trazem traços do Mumford & Sons de início da carreira (com cordas do banjo de Winston Marshall e a potente voz rouca do vocalista e guitarrista Marcus Mumford), as faixas Slip Away, Forever, Rose of Sharon e Darkness Visible, mergulham nas cordas do baixo de Ted Dwane e sons crescente de uma guitarra do pop rock, lembrando o trabalho mais pasteurizado do que grupos como o Coldplay fazem. Woman é a composição que mais segue uma pegada pop, com uma estrutura mais batida e comum dentro do que se vê na indústria musical atualmente, destoando do restante do que o álbum apresenta.

Fechando a coletânea, a homônima Delta se justifica como a representação do que é esse novo trabalho. Com um refrão em que a voz rouca de Marcus cresce sobre a melodia elétrica da guitarra, a canção simboliza a tentativa de aproximação do status rockstar que bandas como Coldpaly e U2 possuem. O refrão de Delta, inclusive, lembra muito With or Without You, do grupo capitaneado por Bono. É como se o quarteto tivesse decidido mergulhar ainda mais no que havia sido iniciado em faixas como Believe e The Wolf, presentes em Wilder Mind.

Da esquerda pra direita, os membros do Mumford & Sons: Ben Lovett, Marcus Mumford, Winston Marshall e Ted Dwane

De uma maneira curiosa, o terceiro verso de Delta é o que melhor resume a música título símbolo do novo álbum. “E eu te encontro no delta / O que está por trás, eu posso ver claramente / Mas isso além, isso está além de mim“. Ao afirmar que conseguem ver claramente o que fizeram no passado, mas que ainda há incertezas do que pode vir no futuro, Mumford & Sons se esquecem do presente e da parte mais importante do que Delta deveria ser: o encontro de sons e das duas identidades que a banda parece construir.


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