“lately I feel EVERYTHING”: Ciclos que se fecham para sempre

Em seu quarto álbum de estúdio, WILLOW mostra ao mundo a construção sonora e conceitual que, gradualmente, traz o pop punk de volta aos holofotes do cenário mainstream.

Em seu quarto álbum de estúdio, WILLOW mostra ao mundo a construção sonora e conceitual que, gradualmente, traz o pop punk de volta aos holofotes do cenário mainstream.


EEsqueça tudo o que você sabe sobre a garota de Whip My Hair. Musicalmente, ela não existe desde 2015, com o lançamento do disco Ardipithecus. Já em 2021, WILLOW colocou a última pá de terra em cima de tal imagem — e desta vez, o público geral presenciou e reverberou o momento.

Neste mês de julho, WILLOW lançou seu quarto álbum de estúdio entitulado lately I feel EVERYTHING, conceituado em torno do gênero pop punk, com participações especiais de Travis Barker, Avril Lavigne, Ayla Tesler-Mabe, Tierra Whack e Cherry Glazerr. Em seu novo disco, a cantora seguiu seus antigos protocolos e participou ativamente das etapas de produção e letras, trazendo canções sobre emoções humanas, relacionamentos conturbados, reflexão e desenvolvimento pessoal.

 

Sobrecarga

Capa do álbum

t r a n s p a r e n t s o u l é a primeira música do álbum e abre a era de maneira impactante, evidenciando a versão mais atualizada de WILLOW para o mundo. Com solos contagiantes de guitarra e vocais de estabilidade inegável, a cantora estreia a música com dois projetos audiovisuais, sendo um material de performance e o videoclipe oficial.

Ambas as produções fazem alusão ao estado de paranoia e distorção visual, elevando o ouvinte à sensação de estar em outro plano espiritual, ao mesmo tempo em que a sonoridade traz nostalgia e remete ao tempo em que bandas de rock de porão eram super populares e adolescentes passavam seus fins de semana em points lotados. O sentimento transmitido por t r a n s p a r e n t s o u l é um saudoso alívio em tempos de isolamento e uma esperança de novos ares para o punk rock. De maneira calculada, a artista é bem sucedida em sumarizar a intenção do disco a partir do lead single.

Após o sucesso de t r a n s p a r e n t s o u l com o público, a faixa Lipstick chegou como última prévia do que lately I feel EVERYTHING nos reservava em sua totalidade. A música tem uma energia que nos envolve em uma transcendentalidade sensorial condicionada por uma produção um tanto agoniante. A potência da voz de WILLOW mesclada com acordes de guitarra e contínuos destaques nos pratos da bateria provocam uma confusão palpável, um sentimento sufocante — reiterado pela própria letra, que narra uma mente fechada em um labirinto.

Outro destaque do disco é naïve, canção de melodia melancólica e letra com cunho político, cujos vocais de WILLOW são abafados no refrão, como se ela gritasse dentro de uma caixa. A música transmite o desejo de sobreviver em meio à violência policial e o genocídio negro, enquanto carrega o relato pessoal de seu primo, baleado por balas de borracha em um protesto — assim como diversos ativistas negros ao redor do mundo.

O disco lately I feel EVERYTHING é grandioso pela brilhante parceria de Tyler Cole e WILLOW na produção, que trabalharam anteriormente no álbum especial The Anxiety. Por isso, não podemos descartar a importância dos feats para a construção sonora que a cantora buscou alcançar. Travis Barker se faz presente em três faixas, incluindo t r a n s p a r e n t s o u l, Gaslight e G R O W — que também conta com Avril Lavigne. O baterista do Blink-182 emprestou suas habilidades para que a artista atingisse seu objetivo de gravar canções que referenciam o rock dos anos 90 em uma roupagem mais moderna.

Além disso, em todas as músicas com colaboração, é perceptível como a cantora retrocedeu e avançou eras, mostrando sua versão repaginada que vai desde o punk setentista com ¡BREAKOUT! até o último respiro do rock mainstream dos anos 2000, em G R O W — na qual Lavigne se encaixa bem, revivendo em suas referências power pop e punk de Girlfriend e Here’s To Never Growing Up.

 

Crescimento

É nítido que lately I feel EVERYTHING é o fechamento definitivo de um ciclo; o estrondoso lançamento que trouxe WILLOW de volta para os olhos do público geral, apresentando a evolução musical da cantora em detrimento do pop perfection que imprimiu seu nome na indústria em 2010. Agora, em 2021, ela volta a cantar a famosa Whip My Hair e, com um novo arranjo de guitarra, ela raspou a cabeça durante a performance.

O simbolismo de seu ato está na atitude tomada por WILLOW em 2010, quando tinha contrato fechado com o selo da gravadora de Jay Z, Roc Nation, e estava em turnê para apresentar a faixa. Na época, ela tinha nove anos de idade e não se sentia feliz em fazer shows. Foi quando pediu ao pai, Will Smith, para cancelar o contrato e voltar para casa. Com a recusa, se trancou dentro de um quarto de hotel e raspou a cabeça para não precisar performar a música cujo refrão exigia que ela balançasse seu cabelo. Assim, fez sua voz ser ouvida pelo pai, que imediatamente entendeu o que a filha sentia.

O ato de raspar a cabeça no palco, em 2021, concluiu uma era de 11 anos corridos, como uma mensagem de que “a garota de Whip My Hair não existe mais“. WILLOW vem atualizando sua sonoridade desde o primeiro álbum Ardipithecus, o degrau que fez com que o seu atual eu nascesse e fosse reconhecido pela autenticidade de seu pop punk. E é isso que ela quer que o mundo se lembre quando ouve seu nome.

lately I feel EVERYTHING é, assim como os seus três discos anteriores, um trabalho repleto de sentimentos subjetivos e sem pretensão de agradar o grande público — embora tenha agradado. Despreocupada com o sucesso comercial, WILLOW trilhou o caminho que a faz feliz como cantora e compositora e, como consequência de sua verdade enquanto artista, foi capaz de cativar organicamente os ouvintes de diversos gêneros sem renunciar a essência de sua música.

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