A nova temporada de "Dear White People" começa a dar indícios de uma falta de fôlego narrativo, perdendo o tom certeiro que deu vida ao show.

A nova temporada de “Dear White People” começa a dar indícios de uma falta de fôlego narrativo, perdendo o tom certeiro que deu vida ao show.


Ainda com tantos temas para serem explorados, Dear White People parece ter perdido o fôlego e consistência de narrativa, apresentando uma nova temporada rasa, salvo alguns diálogos mais ácidos. A produção, dirigida e roteirizada por Justien Simien, teve sua estreia na Netflix no primeiro semestre de 2017, adaptando de forma mais profunda um filme homônimo de 2014 e tratando, principalmente, do preconceito racial de forma precisa, irônica e, até mesmo, escancarada em alguns momentos.

Agora, a série retorna em sua terceira temporada, mostrando a vida dos estudantes negros, já conhecidos do público, em uma Universidade em que a maioria dos alunos são brancos. No entanto, a obra que parecia ter um tom certeiro, se encontra levemente perdida e com tramas dispensáveis.

https://www.youtube.com/watch?v=qvPbJdDKKds

Seguindo a linha de episódios curtos, a série conta com 10 capítulos, com uma pequena mudança em relação aos anos anteriores. Desta vez, os capítulos são menos marcados, não apresentando personagens específicos definidos previamente. Talvez isso tenha sido uma alternativa para trabalhar a série de maneira mais geral, agora que os integrantes já são figuras populares.

Um dos acertos temáticos da nova temporada de Dear White People é a questão das falsificações de cotas, um tema tão comum e presente no Brasil que parece ser recorrente no mundo inteiro. Não é difícil se lembrar do escândalo na Universidade Federal de Minas Gerais, que colocou 62 estudantes na berlinda por, possivelmente, terem fraudado o sistema de cotas. Desses alunos, 34 foram submetidos a um processo administrativo e os outros 28 sob suspeita.

Na trama, apesar da importância do assunto, a discussão é superficial e tratada como um deslize que pode ser aceito ou justificável. Mais descartável que isso, apenas o núcleo que trabalha a sociedade secreta. Parte que fecha a segunda temporada e mostra total falta de importância ao roteiro.

Algo que pode dar profundidade para o futuro da série é o núcleo Latino, que está sendo introduzido de forma sútil e tem um bom potencial de desenvolvimento, não só de personagens, mas também em uma construção de tensões sociais que possam expandir as discussões para outros minorias e camadas sócio-culturais da sociedade. No entanto, caso haja uma sequência da produção, os roteiristas precisam se atentar que frases de efeitos podem virar memes, mas não garantirem uma grande trama.

Ao final, apesar de continuar tocando em assuntos importantes e debatendo temas contemporâneos, a nova temporada de Dear White People já dá indícios de um triste desgaste narrativo, destoando da excelente primeira temporada. A obra que antes tinha um tom certeiro, se encontra levemente perdida e com tramas dispensáveis

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