"Disque Amiga Para Matar" se sustenta no equilibriio entre drama e comédia ao abordar violência, maternidade e moralidade.

“Disque Amiga Para Matar” se sustenta no equilibriio entre drama e comédia ao abordar violência, maternidade e moralidade.


Nota da Colab: o texto contém spoilers.

 

SSeguindo o caminho dos grandes teatros gregos, ainda hoje temos na comédia e no drama as principais temáticas do audiovisual, as quais permeiam o amor, a vingança e a moral. Sem fugir muito dessa delimitada gama, a Netflix vem apostando em uma mistura pouco habitual das teses clássicas. Em sua segunda temporada, Disque Amiga para Matar tem no conflito entre a vingança e a justiça o diferencial que nos mantém imersos nessa trama bem tecida – mas sem nunca se esquecer das pitadas de comédia.

Para contextualizar é preciso um breve resumo da primeira temporada de Dead To Me. (SPOILER!!!) Nela  acompanhamos a recem viuva Jen Harding (Christina Applegate) e sua nova amiga Judy Hale (Linda Cardellini), que tentam superar as dificuldades da vida. Entretanto, o plot twist ocorre quando descobrimos que Judy é a responsável pela morte do marido da amiga. Apesar da revolta, Jen se vê presa a Hale quando ela mesma comete um assassinato. Em sua nova temporada acompanhamos as protagonistas e sua reatada amizade, que se fortalece na ocultação do crime.

A vítima dessa vez é Steve (James Marsden), o abusivo ex-noivo de Judy. Como se não bastasse toda a dificuldade, física e emocional, de se esconder o crime, as protagonistas ainda tem que lidar com Ben, o irmão gêmeo de Steve. Em uma atuação digna de indicações, James Marsden consegue fazer personagens completamente diferentes, saltando do inescrupuloso e repulsivo irmão da primeira temporada para o gentil e carismático quiroprata Ben.

O segundo ano de Disque Amiga para Matar se dedica ao desenvolvimento das personagens e se aprofunda na relação de Jen e Judy. As amigas, que são extremos opostos, se complementam e se amparam formando uma bela, e as vezes complicada, relação. Porém, com o intuito de trazer maior leveza para a saga das criminosas e expandir as tramas secundárias, personagens já existentes ganham mais espaço. Entre eles se destacam Charlie (Sam McCarthy), o filho mais velho de Jen que se responsabiliza por acrescentar ainda mais dificuldade a vida da mãe, e Perez (Diana Maria Riva), a detetive do caso que se aprofunda nesse enredo.

Linda Cardellini e Christina Applegate, respectivamente

A policial também é nossa principal fonte de questionamentos nesse novo capítulo. Abusando de coincidências, a trama parece girar em torno dos mesmos poucos personagens, o que chega a ser ironizado por Perez, a qual diversas vezes faz as protagonistas as perguntas que tanto queremos saber.

Contudo, o principal problema da bem produzida série é se escorar em uma história breve e sem potencial de expansão. Com seus 10 episódios de meia hora cada, a produção se perde em subtramas que se alongam mais que o necessário para preencher uma lacuna que a história principal não consegue suprir. Uma saída poderia ser a diminuição da temporada para oito episódios, que tratassem de todos os assuntos  de forma mais ágil e dinâmica.

Ao abordar com muita comédia temas tão pesados, Disque Amiga para Matar carrega a importante carga de lidar com os três pilares tema: amor, vingança e moral. Para quem já assistiu The Good Place, a experiência se torna ainda mais interessante. Na série, podemos ter uma ideia do funcionamento teórico da moral e da ética dentro da sociedade nas aulas de Child (William Jackson Harper), e quase como em um manual, ela nos prepara para melhor questionar os atos de Jen e Judy. Mesmo sendo independentes, as séries podem ser bem aproveitadas juntas na forma de “estudo” e “exemplo”.

Apesar de ter uma boa química entre os personagens que nos prende e instiga, Disque Amiga para Matar se sobressai ao abordar muito mais do que o crime principal. Ao tratar com simpatia e delicadeza as dificuldades da maternidade e a influência entre mães e filhos, ela aproxima o espectador de suas protagonistas e as torna mais humanas. Mesmo com um gancho final não muito atrativo para a temporada seguinte, com certeza continuaremos a acompanhar Jen e Judy, não por seus erros, mas por sua capacidade de não estereotipar suas alegrias e desafios.

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