Desnudando o western com sensibilidade, "Ataque dos Cães" faz um jogo de tensão sobre desejo e opressão nos pequenos gestos.

Desnudando o western com sensibilidade, “Ataque dos Cães” faz um jogo de tensão sobre desejo e opressão nos pequenos gestos.


TTalvez seja um pouco óbvia a aproximação de Ataque dos Cães, novo filme de Jane Campion após 12 anos de hiato, com First Cow – A Primeira Vaca da América, trabalho mais recente de Kelly Reichardt. Afinal, ambos buscam o western como um campo de estudo de um Estados Unidos em formação e, sobretudo, fazem um exercício de escrutínio das tensões presentes em um universo e gênero extremamente masculinizados.

No caso de Ataque dos Cães, a história se situa em 1920, em um momento já de encerramento da ocidentalização do Oeste americano. O longa adapta o romance de Thomas Savage que trata do embate civilizatório canônico do gênero: a tomada do Oeste selvagem e hostil pela sociedade ocidental endireitada. Essa dicotomia se faz presente aqui nos dois irmãos que estão no centro da narrativa.

O primeiro é George (Jesse Plemons), o homem contido, de vocabulário erudito e ternos sofisticados tais quais um bom civilizado. O segundo é Phil (Benedict Cumberbatch), o viril cowboy que representa toda a brutalidade impiedosa necessária para sobreviver naquela região. Juntos, os dois administram a fazenda dos pais em Montana, entre desentendimentos de visão de mundo que passam a se tornar maiores com a chegada de Rose (Kirsten Dunst), a nova esposa de George, e seu filho Peter (Kodi Smit-McPhee).

 

Revelações Graduais

Desta premissa, Jane Campion tira o melhor de uma história que se faz interessante pelas camadas de tensão e revelações que vão dando as caras graças a escolhas precisas e certeiras de gestos singelos, fortes e reveladores. O que isso cria é um filme que se permite crescer com uma narrativa mais compassada baseada nas relações das personagens, revelando gradativamente as nuances de um jogo de poder que é criado dentro do rancho.

Ao longo de todo Ataque dos Cães, somos mesmo convidados a uma jornada de atenção para o que dito no silêncio por meio do gestual destacado por planos detalhes ou, muitas vezes, aparecem como movimentos que não deveriam ser vistos. Em um jogo de tensões e segredos que vão sendo lentamente revelados, Campion imprime ainda uma atmosfera que combina a tensão da dinâmica de poder (especialmente entre Phil e Rose) com a inquietação do desejo latente (entre Phil e Peter).

Ao focar na técnica de trançar couro, nas mãos trêmulas ao tomar uma bebida alcoólica, na hesitação para tocar uma música no piano, na respiração ofegante ao observar um cowboy, o longa dá conta de sua própria tragédia com tamanha beleza.

Neste sentido, Campion faz com que Ataque dos Cães se torne mesmo um filme sobre relações (familiares, de gênero, poder e amorosas) que são eternamente nutridas e cultivadas por um universo masculinizado, agressivo e opressor. Toda essa visão de mundo mais bruta se faz presente pela natureza árida do cenário do oeste, na mesma medida em que o embate entre a selvageria representada por um irmão confronta a civilidade simbolizada por outro.

 

Domando o Western

É bem interessante que, por mais masculinizado que o western seja, Jane Campion toma o gênero para um exercício de expurgo da masculinidade por meio da mediação da personagem de Kirsten Dunst. Rose passa o filme inteiro interagindo com três figuras masculinas completamente diferentes e o seu sucesso (e em certo momento, inferno atravessado) em domá-las evidencia como a personagem que mais demonstra fragilidade carregue tamanha força.

Se Ataque dos Cães tem mesmo um paralelo evidente com First Cow pela relação entre western, desejo e a masculinização do mundo, o filme de Jane Campion também tem muito a ver com o Beau Travail de Claire Denis. A diretora francesa sempre gostou de propor filmes que desnudam a relação entre corpo e espaço e se Beau Travail toma o ambiente militar como um caldeirão de tensões homoeróticas escondidas pela opressão máscula, Campion mergulha profundamente nas raízes do western para contemplar o mundo masculinizado em um exercício revelador da força presente na sutileza de gestos de tensão, amor, violência e desejo.

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