Apelando para o choque visual, "Titane" impacta visualmente mas sofre ao não dar conta de ser mais coeso narrativamente.

Apelando para o choque visual, “Titane” impacta visualmente mas sofre ao não dar conta de ser mais coeso narrativamente.


ÉÉ bem natural que, quase imediatamente, seja feita uma conexão entre Titane (2021), filme de Julia Ducournau, e Crash – Estranhos Prazeres (1996), de David Cronenberg. Mesmo que um pouco óbvio pela dinâmica dos carros, do sexo, das tensões de gênero retratadas em ambos os filmes, existe uma diferença entre os dois que os deixa muito distantes: Titane sofre de problemas grandes em relação a como construir narrativa e discurso.

Mesmo que essa afirmação soe um pouco absurda, visto que o longa francês é completamente excêntrico, acabei achando muito genérico toda a forma que a Ducournau quer abordar a temática de gênero. O que acontece é que, mesmo que o filme mire em uma excentricidade de história e no choque visual (seja no body horror da atuação ou no impacto de imagens muito pitorescas), elas acabam muito gratuitas e só evidenciam a dificuldade da diretora em transformar aquilo num drama verdadeiramente coeso.

Nesse sentido, é bem trágico que aquilo que Titane tenha de mais “bem resolvido” é o arco do personagem do Vincent Lindon – que está fantástico aqui – justamente porque é a parte mais convencional da história: um pai que perdeu o filho e vive na busca por ocupar o vazio deixado pela perda da criança.

Tem um desequilíbrio muito forte na dinâmica de como as coisas são tratadas e expostas aqui. Entre a contenção de sentimentos e dor que a protagonista sofre e a dosagem de sentimentos do pai vivido pelo Lindon, Titane fica constantemente moldando o espectador em um jogo de choque imagético que, sendo bem honesto, é bem barato.

Isso tudo faz com que Titane seja um exercício da “estética do choque” que é bem resolvido somente na resolução visual das cenas grotescas. De fato, a Julia Ducournau consegue sim criar sequências muito intrigantes visualmente e trabalhar o apelo do body horror muito bem (méritos também para a atuação da Agathe Rousselle), assim como cria imagens simbólicas e interpretativas muito interessantes. O problema é que o filme depende do embarque do espectador nessa proposta simbólica-reflexiva pelo impacto e acaba que o grotesco aqui mais distância do que envolve.

Uma pena que tudo fique tão descolado e transforme Titane em um emaranhado de boas cenas isoladas que incomodam e impactam na mesma medida em que não constroem nem um drama suficiente ou um discurso conciso.

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